quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A reforma protestante e sua importância para a juventude



A Reforma Protestante foi um passo decisivo para a sociedade ocidental. Seu alcance não se restringiu ao aspecto eclesiástico. Nas mais diversas áreas da existência humana, podemos ver sua influência, devido à liberdade de pensamento e expressão que ela garantiu ao enfrentar o domínio católico da produção intelectual da humanidade. Certamente, os jovens têm muito que aprender com esse movimento tão decisivo para a humanidade, iniciado por um jovem monge agostiniano.
A Reforma iniciou-se no dia 31 de outubro de 1517. Martinho Lutero cuidava da igreja do Castelo de Wittemberg, Alemanha, enviado para lá pelo seu mentor, este do convento em que estudava. O intuito era ajudar o jovem Lutero a resolver suas dúvidas de fé. No tempo que se seguiu à sua chegada a Wittemberg, o jovem monge dedicou-se ao estudo e à leitura da Bíblia. Focado em Romanos, Martinho Lutero chegou à conclusão que a prática da Igreja Católica estava errada e que uma reforma era necessária.

No dia mencionado, Lutero pregou suas famosas 95 teses, que ia de encontro à autoridade papal, a cobrança de indulgências e a salvação pelas obras. Diferentemente do que parece, isso não trouxe uma reação imediata. Wittemberg até hoje é uma cidade pequena e as teses foram escritas em Latim, numa época em que poucos sabiam ler, ainda mais em Latim. Demoraram alguns meses para que tudo chegasse ao conhecimento do alto clero católico, mas quando isso se concretizou, a reação foi rápida e severa.

Nos dias que se seguiram, Martinho foi interrogado, ameaçado e desafiado. Suas obras foram proibidas, queimadas e execradas pela "autoridade espiritual' da época. Não fora o apoio de poderosos que se convenceram que Lutero estava certo, sua morte seria uma questão de dias. Ainda assim, a ação deste homem de Deus e daqueles que o seguiram muito tem nos dizer. Devemos olhar para a Reforma buscando algo além da teologia, da doutrina, da hermenêutica e outros aspectos importantes do estudo da Bíblia. Ela nos ensina sobre atitudes importantes quanto ao nosso relacionamento com Deus.

Primeiro, a Reforma nos fala sobre fidelidade a Deus e à sua Palavra. Com uma igreja completamente desviada da verdade das Escrituras, Martinho, certamente, teve a graça de Deus ao seu lado para ter uma visão completamente diferente da dominante na Igreja Romana. Atualmente, o desvio das Escrituras pode ser visto por todos os lados, em diversas denominações cristãs. Assim como a Igreja Católica, elas se cercam de misticismos e ritos estranhos, porém, que impressionam e causam admiração. Por isso, é de extrema importância que o jovem, sempre à procura de novidades, não se deixe levar por emoções e pelo visual das coisas, buscando sempre adequar-se ao que a Palavra de Deus nos ensina e vivendo pela graça.

Em segundo lugar, a Reforma nos ensina sobre a coragem em defender a verdade. Nos tempos de Lutero, o herege era morto. Aqueles que discordavam do alto clero eram considerados traidores de Deus. Nosso reformador não se deixou levar pela intimidação e foi fiel à sua consciência, cativa à Palavra de Deus. Em certa ocasião, na chamada Dieta de Worms, proclamada pelo Imperador Carlos V, Lutero foi intimado para confirmar ou negar seus ensinos. Sua resposta foi um brado pelo que hoje denominamos liberdade de expressão:
    "Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão, porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável."
Será que teríamos essa coragem? Em nossos dias, somos desafiados a defender a verdade. Infelizmente, muitos são os covardes que, por medo da desaprovação dos amigos, ou por simples pressão no local de trabalho, na faculdade, ou mesmo na família, sede a ideias contrárias às Escrituras. Pior ainda, não são poucos que sucumbem totalmente e negam as verdades bíblicas só para fugir da possibilidade de ficar isolado. Enquanto pré-reformadores com John Huss, ou reformadores como Lutero agiram com coragem, como você tem reagido às pressões do dia a dia?
Em último lugar, gostaria de olhar para dependência epistêmica desses homens. Essas palavras parece difícil, mas ela se refere a uma coisa bem simples: conhecimento. Homens como Lutero, Calvino, Huss, Wyclif, Martin Bucer foram totalmente submissos às Escrituras. Por mais que haja diferença entre os pensamentos destes teólogos, resultado das incertezas e debilidades humanas, todos eram submissos à Bíblia. Se no tempo desses homens foi um fator decisivo serem dependentes de Deus para se alcançar conhecimento verdadeiro, hoje, com os avanço e com a relativização da verdade, é salutar que o jovem, servo do Senhor Jesus, sinta-se dependente de Deus para alcançar tal conhecimento. Por mais convincentes que algumas descobertas pareçam ser, mesmo aquelas que contradizem diretamente a Bíblia, precisamos confiar que a Palavra de Deus é a revelação infalível do Criador. Basta lembramos que a ciência  vive em idas e vindas em suas descobertas, tendo suas principais postulações cheias de furos e contradições. Por sua vez, a Bíblia é a mesma desde os tempos antigos, mostrando que devemos tê-la como óculos pelos quais enxergaremos o mundo.
Fidelidade, coragem e dependência: um legado invejável e honroso. Somos jovens protestantes que têm muita história para contar e raízes profundas com as quais firmamos nossos passos. Nesses [496] anos de Reforma protestante, lembre-se que não só tivemos nossas doutrinas definidas, mas que temos desafios grandiosos a fim de nos relacionarmos com Deus e sermos testemunhas de sua verdade. Termino com as palavras de João Calvino:
    "Para que nossa fé repouse verdadeira e firmemente em Deus, devemos levar em consideração, ao mesmo tempo, estas duas partes de seu caráter - seu imensurável poder, pelo qual ele pode manter o mundo inteiro sob seus pés; e seu amor paternal, o qual manifestou em sua Palavra. Quando estas duas coisas vão juntas, não há nada que possa impedir nossa fé de desafiar todos os inimigos que porventura se ergam contra nós, nem devemos ter dúvidas de que Deus nos socorrerá, uma vez que já nos prometeu fazê-lo" (João Calvino: Edições Paracletos, 1999, p.335,336).



Autor: Rev. Ricardo Moura
Fonte: Revista Mocidade Presbiteriana, Nº 38 - 4º Trimestre 2011, p. 17-18 

sábado, 12 de outubro de 2013

Eu, a TV, a Internet e a Glória de Deus

Por Ana Chagas


O que assistimos na nossa casa, em nossa TV, ou ainda, o que acessamos na internet tem glorificado a Deus?
O fato de sermos cristãos não deveria de alguma forma interferir na forma com que selecionamos o que vemos ou deixamos de ver?
Alguém certa vez me falou que possuía “um filtro”, e que sabia muito bem o que deveria escolher. Mas, será que isto é verdade em relação a todos nós? Como vai o meu "filtro" de lixo televisivo ou virtual? Até que ponto temos este controle? Ou, em que condições estaríamos aptos para tal? 

Uma coisa é certa, o homem natural, ou seja, o homem que ainda não teve uma experiência verdadeira de novo nascimento não tem condição alguma de escolher o bem, antes, a sua natureza contaminada pelo pecado originalmente, desde Adão, o torna apto sim, mas para desejar tudo quanto é inimizade para com Deus. O nosso coração é enganoso: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9); como, pois, poderíamos escolher coisas boas? Porém, aqueles que já foram regenerados de fato, agora têm a mente de Cristo, ou seja, deve pensar como Cristo, e logo surge aquela pergunta clássica: “Em seus passos, o que faria Jesus?" Será que Ele se sentaria ao teu lado ou ao meu lado para assistir o que você e eu escolhemos assistir ou ver na internet? Como será que o Senhor olha para nós neste momento? Às vezes penso que Ele sente como quando disse: “[...] quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”(Mateus 23:37 b), sabe por quê? Porque somos rebeldes contra Deus, somos pessoas de dura cerviz, teimosas, como Ele diz muitas vezes com o povo de Israel. Às vezes criticamos o povo de Israel porque era tão rebelde e idólatra de seus próprios prazeres, enquanto nós, não poucas vezes, estamos nos comportando muito pior do que aquele povo. Precisamos rever como temos vivido neste mundo, como estamos vivendo dentro de nossas próprias casas, ou como nos portamos quando estamos sozinhos no nosso quarto, à frente de um computador.

Alguns podem dizer: “Mas desse jeito você está pregando moralidade”. Eu respondo: “Não, eu estou pregando a vida nova que Jesus nos chamou para que a vivêssemos!" Leia comigo o que Paulo diz aos Efésios: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2:1-10).
Observe o final do trecho: criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas! Portanto, não podemos mais guiar-nos a nós mesmos pelo que o nosso “coração” diz que é bom para nós; mas devemos guiar-nos pela instrução do nosso Deus, assim, com certeza não erraremos na escolha dos programas que assistimos, ou das atitudes que tomamos, ou ainda das palavras que falamos; antes desejaremos manter a nossa mente longe de todo e qualquer lixo televisivo ou virtual. Não estou dizendo que a contaminação está apenas fora de nós,na verdade a impureza está presente no nosso coração, mas tudo isso é aguçado pelo que deixamos entrar nas nossas mentes. 
A Sua Palavra nos diz ainda: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco.” (Filipenses 4:7-9).

Mas como encontrar esta direção de que precisamos para não escolhermos mal o que vamos ver? Sendo salvo, nascido de novo, alimentando-se da fonte de toda sabedoria e prudência: o temor do Senhor, por meio de uma vida de comunhão com Ele; lendo a sua Palavra e orando sem cessar, pois a sua Palavra é luz: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.” (Salmos 119:105); e também é Sabedoria: "[...] Quando caminhares, te guiará; quando te deitares, te guardará; quando acordares, falará contigo. Porque o mandamento é lâmpada, e a lei é luz; e as repreensões da correção são o caminho da vida.” (Provérbios 6:20-23). 

Se a escolha do que se assiste na nossa casa está em seu poder ou no meu, (pois nem sempre temos autoridade para tal, mas podemos nos retirar da sala, se esta for a única saída, mas de forma educada) não aceitemos lixo! E não falo apenas de uma propaganda que surge do nada (mas num canal que, diga-se de passagem, também fomos nós que escolhemos ver), falo de programas que escolhemos deliberadamente para assistir mesmo sabendo que o seu conteúdo é totalmente abominável aos olhos de Deus. 

O problema não está em possuirmos televisão ou não , mas naquilo que escolhemos ver. O problema não é estarmos no mundo, mas é o sermos atraídos a amoldar-nos a ele e cedermos. Aprendamos a rejeitar aquilo que o nosso Deus rejeita. Afinal, não estamos na presença dEle apenas quando estamos nas paredes do templo, mas sempre: “Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” (Sl 139.7), pois nós mesmos somos o seu templo: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” (1 Co 3.16-17). Como disse o Apóstolo Paulo: "Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele." (Romanos 8:5-9). 

SANTIDADE, esta é a palavra que resume tudo o que eu afirmo aqui! É também o que Deus espera de nós. Não é o que devemos ser para que Ele nos ame e nos salve, mas é para o que Ele nos amou e nos chamou para sermos santos!

Pensemos nisso.
 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A história da Hermenêutica- uma visão panorâmica

Por Ana Chagas



No decorrer dos séculos, desde que Deus revelou as Escrituras, tem havido diversos métodos de estudar a Palavra de Deus. Os intérpretes mais ortodoxos têm valorizado a importância de uma interpretação literal. Outros têm empregado um método alegórico, e ainda outros têm examinado letras e palavras tomadas individualmente como possuindo significado secreto que precisa ser decifrado.
Uma visão histórica dessas práticas nos capacita a vencermos a tentação de crer que o nosso sistema de interpretação é o único que já existiu. Um entendimento dos pressupostos de outros métodos proporciona uma perspectiva mais equilibrada e uma capacidade para um diálogo mais significativo com os que crêem de modo diferente.
Pela observação dos erros já cometidos por outros durante todo este período, podemos conscientizar-nos mais dos possíveis perigos quando somos tentados de maneira semelhante; e vemos também que muitos dos grandes cristãos, como Orígenes, Agostinho e Lutero entenderam e receitaram princípios hermenêuticos melhores do que os que eles mesmos praticaram.


EXEGESE JUDAICA ANTIGA
Um estudo da história da interpretação bíblica começa, em geral com a obra de Esdras (Ne 8.8) “Leram no Livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.”
Os escribas que vieram a seguir tiveram grande cuidado em copiar as Escrituras, crendo que cada letra do texto era a Palavra de Deus inspirada.
No tempo de Cristo, a exegese judaica podia classificar-se em quatro tipos principais: literal, midrástica, pesher, e alegórica.
O método literal de interpretação, referido como peshat, evidentemente servia de base para outros tipos de interpretações. A interpretação midrástica incluía uma variedade de dispositivos hermenêuticos que se haviam desenvolvido de maneira considerável no tempo de Cristo e continuaram a desenvolver-se ainda por diversos séculos. O Rabi Hillel, cuja vida antecede a ascensão do cristianismo por uma geração ou tanto, é considerado como o elaborador das normas básicas da exegese rabínica que acentuava a comparação de ideias, palavras ou frases encontradas em mais de um texto, a relação de princípios gerais com situações particulares, e a importância do contexto na interpretação. Contudo, teve continuidade a tendência no sentido de uma exposição mais fantasiosa em vez da conservadora. Isto resultou numa exegese que dava significado a textos, frases e palavras sem levar em conta o contexto no qual se tencionava fossem aplicados; combinava textos que continham palavras ou frases semelhantes, sem considerar se tais textos referiam-se à mesma ideia; e tomava aspectos incidentais de gramática e lhes dava significação interpretativa. A interpretação pesher existia particularmente entre as comunidades de Qunran. Esta forma emprestou extensivamente das práticas midrásticas, mas incluía um significativo enfoque escatológico. A comunidade acreditava que tudo quanto os antigos profetas escreveram tinha significado profético velado que devia ser iminentemente cumprido por intermédio de sua comunidade do pacto. A exegese alegórica baseava-se na ideia de que o verdadeiro sentido jaz sob o significado literal da Escritura. Historicamente, o alegorismo foi desenvolvido pelos gregos para reduzir a tensão entre sua tradição de mito religioso e sua herança filosófica. Filão, (judeu c. 20 a.C. – c. 50 d.C.) acreditava que o significado literal da Escritura representava um nível imaturo de compreensão; o significado alegórico era para os maduros. Devia-se usar a interpretação alegórica em dez casos específicos, dentre os quais, os critérios 3 e 10 são indicações válidas de que o autor tencionava que seu escrito fosse entendido como alegoria.


O USO DO ANTIGO TESTAMENTO PELO NOVO
Aproximadamente 10% do Novo Testamento constitui-se de citações diretas, de paráfrases do Antigo Testamento ou de alusões a ele. Dos trinta e nove livros do AT, apenas nove não são expressamente mencionados no Novo. Como consequência, um significativo corpo de literatura exemplifica os métodos interpretativos de Jesus e dos escritores do Novo Testamento.


O USO QUE JESUS FAZ DO ANTIGO TESTAMENTO
A partir de um exame do uso que Jesus fazia do AT, podemos chegar a algumas conclusões: 1) Ele foi uniforme no tratar as narrativas históricas como registros fiéis do fato; 2) Quando Jesus fazia aplicação do registro histórico, ele o extraía do significado normal do texto, contrário ao sentido alegórico; não demonstrou tendência alguma para dividir a verdade escriturística em níveis – um nível superficial baseado no significado literal do texto e uma variedade mais profunda baseada em algum nível místico; 3) Ele denunciou o modo como os dirigentes religiosos haviam desenvolvido métodos causísticos que punham à parte a própria Palavra de Deus que eles alegavam estar interpretando, e no lugar delas colocavam suas próprias tradições; 4) os escribas e fariseus, por mais que quisessem acusar a Cristo de erro, nunca o acusaram de usar qualquer Escritura de modo antinatural ou ilegítimo; 5) quando Jesus, vez por outra, usou um texto de um modo que nos parece antinatural, geralmente se tratava de legítima expressão idiomática hebraica ou aramaica, ou padrão de pensamento que não se traduz diretamente para a nossa cultura e nosso tempo. O uso que o Novo Testamento faz do Antigo, os quais provavelmente suscitam a máxima questão com referência à sua legitimidade hermenêutica, são as passagens de cumprimento.


O USO QUE OS APÓSTOLOS FIZERAM DO ANTIGO TESTAMENTO
Os apóstolos acompanharam seu Senhor, e consideraram o AT como a Palavra de Deus inspirada (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21). Em cinquenta e seis casos, pelo menos, há referência explícita a Deus como o autor do texto bíblico. À semelhança de Cristo, eles aceitaram a exatidão histórica do AT(At 7.9-50; 13.16-22; Hb 11). A elevada estima com a qual os escritores do NT consideraram o AT sugere fortemente que não teriam, de um modo consciente ou intencional, interpretado mal as palavras que acreditavam ter sido proferidas pelo próprio Deus. Embora tendo dito isso, geralmente surgem diversas perguntas a respeito do uso que fizeram do Antigo Testamento os escritores do Novo; como: 1) Ao citar o AT, com freqüência o Novo modifica o fraseado primitivo. Como se pode justificar hermeneuticamente tal prática? Após análise, verifica-se que o fato de que os escritores neotestamentários às vezes parafrasearam ou citaram indiretamente o AT não indica, de forma alguma, que usaram métodos interpretativos ilegítimos. E 2) O Novo Testamento parece usar partes do AT de modo antinatural. Como se justifica hermeneuticamente esta prática? Acerca desta segunda questão, verifica-se que estes poucos exemplos podem ser resolvidos à medida que entendemos mais plenamente os métodos interpretativos dos tempos bíblicos. Assim, o próprio NT lança a base para o método histórico-gramatical da moderna hermenêutica evangélica.


EXEGESE PATRÍSTICA
A despeito da prática apostólica, uma escola de interpretação alegórica dominou a igreja nos séculos que se sucederam. Esta alegorização derivou-se de um propósito digno – o desejo de entender o AT como documento cristão. Contudo, o método alegórico segundo praticado pelos Pais da igreja muitas vezes negligenciou por completo o entendimento de um texto e desenvolveu especulações que o próprio autor nunca teria reconhecido. Uma vez abandonado o sentido que o autor tinha em mente, conforme expresso por suas próprias palavras e sintaxe, não permaneceu nenhum princípio regulador que governasse a exegese. Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215) acreditava que as Escrituras ocultavam seu verdadeiro significado a fim de que fôssemos inquiridores, e também porque não é bom que todos a entendam. Ele desenvolveu a teoria de que cinco sentidos estão ligados à Escritura (histórico, doutrinal, profético, filosófico, e místico), com as mais profundas riquezas disponíveis apenas aos que entendem os sentidos mais profundos. Orígenes (185? – 254?) foi o notável sucessor de Clemente. Ele cria ser a Escritura uma vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico, e dava grande importância a 1 Co 2.6-7. Ele acreditava que assim como o homem se constitui de três partes – corpo, alma e espírito – da mesma forma a Escritura possui três sentidos; o corpo é o sentido literal, a alma o sentido moral, e o espírito é o sentido alegórico ou místico. Todavia, na prática, Orígenes menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao sentido moral, e empregou constantemente a alegoria, uma vez que só ela produzia o verdadeiro conhecimento. Agostinho (354 – 430) foi, de longe o maior homem de sua época. Em seu livro sobre a doutrina cristã ele estabeleceu diversas regras para exposição da Escritura, algumas das quais estão em uso até hoje. Na prática, porém, Agostinho renunciou à maioria de seus princípios e inclinou-se para uma alegorização excessiva. Ele cria que a Escritura tinha um sentido quádruplo – histórico, etiológico, analógico e alegórico. Esta opinião predominou na Idade Média. Na teoria ele sistematizou muitos princípios de exegese sadia, mas na prática, deixou de aplicar esses princípios em seu estudo bíblico.


A ESCOLA DE ANTIOQUIA DA SÍRIA
Um grupo de eruditos em Antioquia da Síria tentou evitar o “letrismo” dos judeus e o alegorismo dos alexandrinos. Defendiam que o maior zelo o princípio da interpretação histórico-gramatical, isto é, que um texto deve ser interpretado segundo as regras da gramática e dos fatos da história. Evitavam a exegese dogmática, asseverando que uma interpretação deve ser justificada por um estudo de seu contexto gramático e histórico, e não por um apelo à autoridade. Criticavam os alegoristas por lançarem dúvida na historicidade de muita coisa do Antigo Testamento.


EXEGESE MEDIEVAL (600 - 1500)
Pouca erudição teve origem na Idade Média; a maior parte dos estudantes da Bíblia devotava-se a estudar e compilar as obras dos Pais primitivos. A interpretação foi amarrada pela tradição, e o que se destaca era o método alegórico. O sentido quádruplo da Escritura engendrado por Agostinho era a norma para a interpretação bíblica (a letra mostra-nos o que Deus e nossos pais fizeram; a alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé; o significado moral dá-nos as regras da vida diária e a anagogia mostra-nos onde terminamos nossa luta). Embora predominasse este método, outros métodos estavam sendo desenvolvidos, e os cabalistas na Europa e na Palestina continuaram na tradição do primitivo misticismo judaico. Entre alguns grupos, porém, estava em voga um método de interpretação mais científico. Os judeus espanhóis dos séculos XII e XV incentivaram o retorno ao método de interpretação histórico-gramatical. Nos séculos XIV e XV predominava profunda ignorância no que concerne ao conteúdo da Escritura; alguns doutores de teologia nunca haviam lido a Bíblia toda. A Renascença chamou a atenção para a necessidade de conhecer as línguas originais a fim de entender-se a Bíblia. Erasmo facilitou este estudo ao publicar a primeira edição de crítica ao NT grego, e Reuchlin com sua tradução de uma gramática e léxico hebraicos. Foi se estabelecendo então, que a Escritura tem apenas um único sentido. Lutero (1483 – 1546) acreditava que a fé e a iluminação do Espírito eram requisitos indispensáveis ao intérprete da Bíblia; que a Bíblia devia ser vista com olhos inteiramente distintos daqueles com os quais vemos outras produções literárias. Lutero sustentava que a Igreja não deveria determinar o que as Escrituras ensinam; pelo contrário, as Escrituras é que deveriam determinar o que a Igreja ensina. Chamou o método alegórico de interpretação da Escritura de “sujeira”, “escória” e de “um monte de trapos obsoletos”. Ele acreditava que a Bíblia é um livro claro (a perspicuidade da Escritura), contrariamente ao dogma católico romano de que as Escrituras são tão obscuras que somente a igreja pode revelar seu verdadeiro significado. Quer concordemos, quer não,  com todas as designações de Lutero, seu princípio cristológico o capacitou a demonstrar a unidade da Escritura sem apelação para a interpretação mística do texto do AT. Ele acreditava que o reconhecimento e a manutenção cuidadosa da distinção entre Lei-Evangelho eram decisivos ao entendimento adequado da Bíblia. Melanchton, companheiro de Lutero em questões de exegese, continuou a aplicação dos princípios hermenêuticos de Lutero em suas exposições do texto bíblico, sustentando e aumentando o impulso da obra de Lutero. Calvino (1509 – 1564), o maior exegeta da Reforma, concordava, em geral, com os princípios articulados por Lutero. Sua sentença favorita era “A Escritura interpreta a Escritura”. Ele declarou certa vez: “a primeira tarefa de um intérprete é deixar que o autor diga o que ele de fato diz, em vez de atribuir-lhe o que pensa que ele vai dizer”. Calvino, provavelmente superou a Lutero em harmonizar suas práticas exegéticas com sua teoria. Os princípios hermenêuticos sistematizados por estes dois reformadores tornaram-se os grandes princípios norteadores para a moderna interpretação protestante ortodoxa.


EXEGESE PÓS-REFORMA (1550 – 1800)
Confessionalismo- O Concílio de Trento reuniu-se em várias ocasiões de 1545 a 1563 e elaborou uma lista de decretos expondo os dogmas da igreja católica romana e criticando o protestantismo. Os protestantes reagiram com o desenvolvimento de credos que definiam sua posição. Os métodos hermenêuticos durante este período freqüente eram deficientes porque a exegese se tornou uma criada da dogmática, e muitas vezes degenerou-se em mera escolha de texto para comprovação.

Pietismo- Surgiu como reação à exegese dogmática e muitas vezes amarga do período confessional. Philip Jakob Spener (1635 – 1705) é considerado o líder do reavivamento pietista. Ele pedia em um de seus folhetos o fim da controvérsia inútil, o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas obras; melhor conhecimento da Bíblia por parte dos cristãos, e melhor preparo espiritual para os ministros. Muitos pietistas mais recentes descartaram a base de interpretação histórico-gramatical, e passaram a depender de uma “luz interior” ou de “uma unção do Santo”.

Racionalismo- Posição filosófica que aceita a razão como a única autoridade que determina as opções ou curso de ação de alguém, este modo de pensar viria causar profundo efeito sobre a teologia e a hermenêutica.

Durante o período que se seguiu à Reforma, o uso magisterial da razão começou a emergir mais plenamente como nunca antes. Surgiu o empirismo, crença de que o único conhecimento válido que podemos possuir é o obtido através dos cinco sentidos, e aliou-se ao racionalismo.



HERMENÊUTICA MODERNA (1800 ATÉ O PRESENTE)
Liberalismo- o racionalismo filosófico lançou a base do liberalismo teológico. Ao passo que nos séculos anteriores a revelação havia determinado o que a razão devia pensar, no final do século XIX a razão determinava que partes da revelação (se houvesse alguma) deviam ser aceitas como verdadeiras; o foco agora era a sua autoria humana. O escritor Schleimacher foi além, negando totalmente o caráter sobrenatural da Inspiração. Para muitos destes escritores a inspiração agora referia-se à capacidade da Bíblia (produzida humanamente) de inspirar experiência religiosa. Os racionalistas alegavam que tudo que não estivesse conforme a “mentalidade instruída” devia ser rejeitado. Isto incluía doutrinas como a depravação humana, o inferno, o nascimento virginal, e com freqüência, até a expiação vicária de Cristo. Os milagres e outros exemplos de intervenção divina eram regularmente explicados de forma satisfatória como exemplos de pensamento pré-crítico. Era freqüente a mudança do próprio foco interpretativo: a pergunta já não era “Que é que Deus diz no texto?” e sim “Que é que o texto me diz a respeito do desenvolvimento da consciência religiosa deste primitivo culto hebraico?”.

Neo-ortodoxia- é um fenômeno do século XX, e ocupa, em alguns aspectos, uma posição intermediária entre os pontos de vista liberal e ortodoxo. Rompe com a opinião liberal de que a Escritura é tão-só produto do aprofundamento da consciência religiosa do homem, mas detém-se antes de chagar à perspectiva ortodoxa da revelação. Sustentam que Deus não se revela em palavras, mas apenas por sua presença e que, quando alguém lê as palavras da Escritura e reage com fé à presença divina, ocorre a revelação. A infalibilidade ou inerrância não têm lugar no vocabulário neo-ortodoxo. As histórias bíblicas da interação entre o sobrenatural e o natural são vistas como mitos – não no mesmo sentido dos mitos pagãos, mas no sentido de que não ensinam história real. Os “mitos” bíblicos (como a criação, a queda e a ressurreição) visam a apresentar verdades teológicas na forma de incidentes históricos.

A “Nova hermenêutica”- Uma criação européia a partir da Segunda Guerra Mundial. Emergiu basicamente da obra de Bultmann e foi levada adiante por Ernst Fuchs e Gerhard Ebeling. A linguagem, dizem eles, não é realidade, mas apenas uma interpretação pessoal da realidade. Para eles, a hermenêutica é uma investigação da função hermenêutica da fala como tal, e assim tem um raio de ação muito mais amplo e mais profundo.

A Hermenêutica no Cristianismo Ortodoxo- Durante os últimos 200 anos continuou a haver intérpretes que criam que a Escritura representa a revelação que Deus faz de si próprio – de suas palavras e de suas ações – à humanidade. A tarefa do intérprete, no entender deste grupo,tem sido procurar compreender mais plenamente o significado intencional do primitivo autor. Empreenderam-se estudos da história, da cultura, da língua e da compreensão teológica que cercam os primitivos beneficiários, a fim de que se entenda o que a revelação bíblica significava para esses beneficiários.


O que podemos concluir ao analisarmos todo este processo que ocorreu em relação à interpretação das Escrituras Sagradas? O que acontece todas as vezes que alguém interpreta as Escrituras sem o uso legítimo da Hermenêutica?

Devemos ter cuidado ao aplicar o nosso “achismo” ao lermos a Bíblia, pois ela É o que É: A Revelação Especial de Deus, por meio da qual Deus desvenda aos olhos do homem, de maneira progressiva, o seu plano redentivo para o homem. A razão jamais poderá assumir supremacia sobre aquilo que já foi revelado por Deus em Sua Palavra. Não podemos partir de pressupostos aleatórios, criados pela nossa imaginação ou experiência espiritual pessoal, mas devemos buscar o norte nas regras básicas da Hermenêutica.
Alguns têm trazido à existência diversos erros teológicos, e até fundado seitas e “igrejas” a partir de textos que tomaram de forma isolada e interpretaram a seu bel-prazer. Há também aqueles que usam versículos bíblicos isolados e mal interpretados para embasar sua vida de prática deliberada de pecado diante de Deus. Outros sofrem por pensar que perderam a salvação por voltarem a pecar mesmo depois de regenerado, por interpretar mal certos versículos das Escrituras. É necessário que cada obreiro, que cada crente busque utilizar a hermenêutica constantemente em seus estudos da Palavra de Deus, e não apenas em período em que se encontra no seminário, mas que isto seja uma prática comum no meio dos cristãos; para que possam estar aptos a instruir de forma correta, para que possam ajudar um irmão que está sofrendo algo desta natureza, ou mesmo abrir os olhos aos que estão sendo tentados à apostasia, ou a serem levados por ventos de doutrinas anti bíblicas.
Ao tentar trazer a linguagem da Bíblia o mais próximo possível à nossa compreensão, muitos acabaram criando uma paráfrase da mesma, e não uma interpretação fiel. Esta busca de aproximar as verdades bíblicas do nosso contexto atual deve ser feita com total fidelidade, em santo temor, sem contemplar as nossas próprias visões doutrinárias, mas o que verdadeiramente o autor disse e o que verdadeiramente Deus disse; e para vencermos os diversos abismos que surgem na busca da compreensão da mensagem bíblica, como o abismo histórico, o abismo cultural, a diferença linguística e a lacuna filosófica é imprescindível que recorramos ao uso da hermenêutica.
Não podemos nos esquecer de que a Bíblia não é um livro comum, e de que, por se tratar da transmissão da mensagem divina, requer fidelidade na sua interpretação e exposição.
O Senhor procura servos fiéis, despenseiros fiéis, embaixadores fiéis, arautos fiéis, que dão o alimento correto às Suas ovelhas; às quais Ele arrebanha ao longo de toda a história da humanidade. E fazendo assim, ao chegarem à sua presença, certamente ouvirão dele o bem-vindo: “Servo bom e fiel, entra no descanso do teu Senhor!”

Fonte bibliográfica:

VIRKLER, Henry. Hermenêutica Avançada. São Paulo. Editora Vida.2007.